
Ângelus
A Filinto D'Almeida
Francisca Júlia (1871 - 1920)
Considerada a maior poetisa da língua portuguesa em seu tempo, foi a mais fiel representante do Parnasianismo no Brasil, a única que conseguiu atingir o respeito à forma e a impassibilidade exigidos pelo movimento: a arte pela arte.
Desmaia a tarde. Além, pouco e pouco, no poente, O sol, rei fatigado, em seu leito adormece: Uma ave canta, ao longe; o ar pesado estremece Do Ângelus ao soluço agoniado e plangente.
Salmos cheios de dor, impregnados de prece, Sobem da terra ao céu numa ascensão ardente. E enquanto o vento chora e o crepúsculo desce, A ave-maria vai cantando, tristemente.
Nest'hora, muita vez, em que fala a saudade Pela boca da noite e pelo som que passa, Lausperene de amor cuja mágoa me invade,
Quisera ser o som, ser a noite, ébria e douda De trevas, o silêncio, esta nuvem que esvoaça, Ou fundir-me na luz e desfazer-me toda.
Publicado no livro Esfinges: versos (1903).
- Postado por: Cáritas Souzza às 14h04
[ ]
[ envie esta mensagem ]

|